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Mostrando postagens de 2025

A medicina não é palco.

Silvio Darlan A decisão judicial que determinou a retirada do vídeo institucional publicado pelo Município de Conceição/PB https://www.tjpb.jus.br/noticia/justica-determina-a-retirada-de-video-com-dados-sensiveis-de-paciente-falecido revela mais do que uma controvérsia jurídica. Ela expõe um problema social grave, marcado pela negligência no cuidado, pela banalização da vida e pela cultura da exposição típica da geração do “tudo posto”. O caso mostra um paciente com sintomas claros de doença grave que não recebeu atendimento adequado no tempo certo. A ausência de exames, a demora na transferência e a falta de condutas eficazes indicam uma falha estrutural do sistema de saúde local, onde o improviso e o “mínimo possível” acabam substituindo o dever de cuidado. Não se trata apenas de erro individual, mas de um modelo institucional que normaliza a precariedade. A segunda falha, ainda mais simbólica, ocorreu após a morte. Ao divulgar publicamente o nome completo do paciente falecido e ...

As grades de Brasília e as grades para o julgamento de Bolsonaro

Hugo Barreto/Metrópoles Silvio Darlan Hoje li uma matéria no jornal Folha de São Paulo sobre os preparativos de segurança na Praça dos Três Poderes, especialmente na área do Palácio do Supremo Tribunal Federal. O julgamento de Bolsonaro será histórico, não apenas para a democracia brasileira, mas para todas as democracias da América Latina. Nos últimos anos, o Brasil não teve a devida justiça de transição nem punição adequada para aqueles que, durante a ditadura civil-militar, cometeram crimes contra os direitos humanos. A história mostrou que muitas vozes contrárias à ditadura foram mortas, sem que seus autores fossem responsabilizados. Segundo a matéria, uma grande estrutura está sendo montada para garantir a segurança dos servidores e ministros que analisarão esse caso. É uma história bizarra que precisa ser tratada com justiça, respeitando todo o devido processo legal, que é o que sustenta a nossa democracia. Mas algo me chamou atenção: as grades. Aquelas grades de metal, móve...

Elba Ramalho fará shows em Lille, França, entre 11 a 14 de setembro durante o Festival Internacional

Silvio Darlan Foto: Rondinelle de Paula/Codecom-CG Elba Ramalho, chega aos 74 anos , com a mesma energia que marcou o início de sua carreira nos anos 1980 e se mantém como uma das maiores representantes da música brasileira no mundo. Ela já levou a cultura nordestina para vários países, como Cuba, Japão, Portugal, Itália, Espanha, Suíça, Inglaterra, Alemanha, China, Israel, Argentina, Uruguai, Porto Rico e Estados Unidos , sempre conquistando o público com seu talento e mostrando a força do forró.   Entre os dias 11 e 14 de setembro , Elba será uma das atrações do 1º Festival Internacional do Forró de Raiz , em Lille, França , que faz parte da Temporada Brasil–França 2025 . O evento, realizado pelo Governo da Paraíba em parceria com o Consórcio Nordeste e instituições culturais francesas, vai transformar a cidade em um verdadeiro palco nordestino. Além de Elba, Santanna, o Cantador e Mestrinho , representantes da tradição e da nova geração do forró, também estarão no fes...

A cidade que ensinou a Paraíba a ler

  A cidade que ensinou a Paraíba a ler Silvio Darlan Cajazeiras faz parte do meu imaginário desde muito cedo. Sempre ouvia a Difusora Rádio Cajazeiras, e, nas audições, minha mente se perdia, imaginando como seria aquela cidade. Para mim, Cajazeiras foi a primeira “cidade grande” que conheci. Nasci em Conceição, uma cidade pequena, simples e pobre em muitos aspectos. Quando fui a Cajazeiras pela primeira vez, aos doze ou treze anos, tudo me parecia imenso. Lembro-me especialmente da Catedral Nossa Senhora da Piedade, sede da diocese. Para uma criança, parecia um castelo: altíssima, imponente, diferente de tudo que eu conhecia no sertão. A arquitetura, a grandeza e a imponência daquela igreja me deixaram deslumbrado. Essas memórias boas sempre me acompanharam. Mais tarde, durante as últimas eleições municipais, voltei a Cajazeiras a trabalho, atuando como advogado de uma coligação em Conceição. Andando pelas ruas, observando os prédios e sentindo a energia da cidade, revi em minh...

O SAL QUE NÃO SALGA E A TERRA QUE NÃO SE DEIXA SALGAR

  O SAL QUE NÃO SALGA E A TERRA QUE NÃO SE DEIXA SALGAR Silvio Darlan No Sermão de Santo Antônio aos Peixes , pregado em São Luís do Maranhão em 1654, Padre Antônio Vieira parte da expressão bíblica “ Vós sois o sal da terra ” para afirmar que a função do pregador é impedir a corrupção moral e espiritual da sociedade. Vieira questiona: quando a terra se mostra corrompida, será culpa do sal que não salga ou da terra que não se deixa salgar? Ou seja, a corrupção decorre tanto da incoerência dos pregadores quanto da resistência dos ouvintes. Santo Antônio, rejeitado pelos homens em Arímino, não desistiu de pregar, indo até aos peixes para cumprir sua missão, demonstrando zelo e criatividade na defesa da fé.   Essa advertência mantém-se atualíssima no Brasil contemporâneo. O crescimento acelerado do protestantismo, sobretudo de vertente neopentecostal, tem acompanhado o avanço de uma influência política marcada pela extrema direita. Em muitas comunidades, igrejas que dever...

Primeira República Brasileira: lições para a democracia de hoje

  Primeira República Brasileira: lições para a democracia de hoje Silvio Darlan A história da Constituição brasileira mostra como a construção do Estado e das instituições políticas sempre foi complexa. A primeira Constituição republicana, de 1891, criou o Estado Federal, o presidencialismo e a forma republicana de governo, estabelecendo regras que, até hoje, influenciam nossa política (SANTOS, 2003). No entanto, percebe-se que o texto legal muitas vezes estava à frente da prática. Entre 1889 e 1930, apesar da estabilidade formal, a aplicação da Constituição foi limitada. O governo provisório usou decretos emergenciais e apenas depois se organizou para criar normas duradouras. Rui Barbosa e Saldanha Marinho participaram da elaboração e revisão do projeto constitucional, mostrando a preocupação em criar instituições sólidas, mas também a dificuldade de implementar mudanças em meio às crises políticas da época (BONAVIDES; ANDRADE, 2003). A Constituição de 1891 buscou descentraliza...

Devora-me: O disco que me Marcou

Devora-me : O disco que me marcou   Silvio Darlan       N asci em 1993, o mesmo ano em que Elba Ramalho lançou Devora-me . Só ouvi esse disco anos mais tarde, através da Rádio Patamuté, em Cajazeiras, e foi amor à primeira audição. Mesmo não sendo contemporâneo do lançamento, senti imediatamente a força da voz de Elba e a energia de suas canções. Nasci na mesma terra que ela, no sertão da Paraíba, e isso dá ainda mais significado à experiência: sua música carrega a alma do nosso povo, nossas histórias e nossa cultura.     O álbum Devora-me mistura ritmos nordestinos com influências latinas e caribenhas, fruto da gravação realizada nos estúdios La Mezza Luna, em Porto Rico, com algumas partes gravadas na PolyGram do Brasil, no Rio de Janeiro, incluindo coro, percussão e a voz de Elba. A produção ficou a cargo de Glenn Monroig, cantor e compositor porto-riquenho, que trouxe uma sonoridade internacional ao projeto, enquanto Max Pierre conduziu a direç...

A Primeira Constituição do Brasil

A Primeira Constituição do Brasil  Silvio Darlan A Constituição Política do Império do Brasil, outorgada por Dom Pedro I em 25 de março de 1824, foi a primeira Constituição do país e a única em vigor durante o período imperial. Ela surgiu em um momento delicado da nossa história: o Brasil havia acabado de conquistar a independência, em 1822, e precisava se organizar juridicamente para evitar a fragmentação territorial e dar legitimidade ao novo Estado. A primeira Assembleia Constituinte, convocada em 1823, entrou em conflito com o imperador ao tentar limitar seus poderes. Diante do impasse, Dom Pedro I dissolveu a Assembleia e nomeou um Conselho de Estado que elaborou o projeto da nova Carta. O texto foi então aprovado e outorgado pelo imperador, sem consulta popular ampla, razão pela qual a Constituição de 1824 é considerada outorgada. O Brasil passou a se organizar como uma monarquia constitucional, hereditária e representativa, dividida em quatro poderes: Executivo, Legislativo...

O golpismo nunca dorme

  O golpismo nunca dorme  Por Silvio Darlan A história política do Brasil mostra que, quando o caminho democrático enfrenta dificuldades, sempre há quem tente atalhar pela força. A Revolta de Aragarças, em 1959, é um exemplo claro disso. Um grupo de militares sequestrou um avião da Panair e tomou outros aviões da Aeronáutica, planejando bombardear o Palácio do Catete e derrubar o presidente Juscelino Kubitschek. O movimento fracassou, mas deixou um recado: o golpismo nunca dorme, apenas espera a oportunidade. Do ponto de vista constitucional, a tentativa foi uma afronta direta ao princípio democrático , base da ordem jurídica desde a Constituição de 1946. Essa Carta já estabelecia que o poder emana do povo, exercido por meio de representantes eleitos, e não por quartéis ou conspirações. O artigo 1º da Constituição de 1988 reafirma essa ideia ao declarar que a República Federativa do Brasil se constitui em Estado Democrático de Direito, fundado na soberania popular. Os gol...

MAR PORTUGUÊS - Fernando Pessoa

  MAR PORTUGUÊS Ó  mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. Fernando Pessoa.

Relendo A Moreninha

  Relendo A Moreninha Silvio Darlan O primeiro livro que li na vida foi A Moreninha , de Joaquim Manuel de Macedo. Ganhei esse exemplar na escola onde estudava, em Conceição, Paraíba, no velho Grupo Escolar José Leite. Lembro do cheiro do papel, das páginas amareladas e do encantamento por aquela história leve, feita de amores e encontros juvenis. Na época, não percebi nada além da narrativa doce e do romance inocente que se desenrolava diante dos meus olhos. Hoje, tantos anos depois, abri novamente o livro. A capa já é outra, a edição é nova, mas as palavras são as mesmas — e agora soam diferentes. Publicado em 1844, escrito por um jovem médico que inaugurou o romance romântico brasileiro, o livro traz também a marca do seu tempo: o preconceito racial entranhado nas falas e descrições. Expressões como “crioulo” ou “cravo da Índia” surgem com naturalidade no texto, mas carregam o peso de séculos de escravidão. Eram palavras usadas para designar negros e escravizados, e que hoje ...

Anjo Querubim

  Anjo Querubim Por Silvio Darlan Todos nós carregamos gatilhos: pequenos sinais que, de repente, nos atravessam a memória e despertam sensações esquecidas. Um perfume, o cheiro da terra molhada depois da chuva, o estalo de uma fogueira de São João… ou uma música. Às vezes, basta uma melodia para que um mundo inteiro de lembranças se revele. Estava eu na praia com alguns colegas, todos ansiosos e animados comentando sobre a Bienal do Livro que se aproxima, quando, de repente, começou a tocar  Anjo Querubim , do compositor nordestino Petrucio Amorim. A música fez grande sucesso na trilha sonora do Nordeste, e sua letra é simples, mas profunda: fala de um ser especial, puro e cheio de luz, que traz alegria, carinho e proteção a todos que estão ao seu redor. Na letra, o “anjo querubim” é descrito como alguém que cuida, que inspira amor e deixa saudade quando não está presente. Cada verso transmite a ideia de delicadeza e presença, de alguém que transforma momentos simples em ins...

Quando ser você era um ato de coragem Por Silvio Darlan

  Quando ser você era um ato de coragem Por Silvio Darlan Em Conceição-PB, no tempo em que tudo era proibido de se dizer, Antônio Caxeado se tornou um nome impossível de calar. Nascido Antônio Marinho, foi o primeiro homem da cidade a viver sua verdade de forma aberta — em uma época em que isso significava enfrentar o desprezo, o medo e o risco de morrer por ser diferente. Enquanto o mundo dizia “não”, ele dizia “sim” a si mesmo. Não pedia desculpas, não se escondia, não se curvava . Sua existência, por si só, era um desafio à hipocrisia. Em uma cidade conservadora, Antônio foi a resistência viva , sem discurso, sem militância — só com presença. Era pobre, era simples, mas não era invisível . Sabia cozinhar como poucos . Sua comida encantava festas, batizados, casamentos. Gente importante o contratava. E mesmo aqueles que cochichavam pelas costas, o tratavam com respeito quando precisavam da sua arte. Conquistou espaço com a força do seu talento e da sua humanidade. Ma...

Restaurar é conservar, não é reinventar

Restaurar é conservar, não é reinventar Por Silvio Darlan Restaurar é conservar, não é reinventar. Essa ideia deve guiar qualquer reforma em prédios históricos. Em Conceição-PB, essa reflexão se torna urgente diante das recentes intervenções na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, um dos maiores símbolos de fé e cultura da nossa cidade. Construída entre 1938 e 1949, a matriz é muito mais do que um espaço de oração. Ela é parte viva da nossa história. Com sua torre imponente e sua arquitetura marcante, representa a fé de gerações e guarda memórias profundas do nosso povo. No entanto, ao longo dos anos, várias alterações feitas em sua estrutura colocaram em risco sua originalidade. Paredes foram erguidas e depois derrubadas, o mesa da celebração foi substituída, o piso do presbitério trocado. Foram muitas mudanças, nem sempre com o cuidado necessário.  É verdade que toda construção antiga precisa de manutenção. Infiltrações no telhado, danos no forro e problemas estruturai...

Jonas Andrade conversou com Deus, com Wesley Safadão e com o mundo Por Silvio Darlan

  Jonas Andrade conversou com Deus, com Wesley Safadão e com o mundo Por Silvio Darlan Esse ano, resolvi conhecer o São João de Caruaru. Sempre ouvi dizer que era o maior e o melhor do mundo, e confesso: é mesmo de encher os olhos e o coração. No segundo dia por lá, no meio de tanta gente, de tanto forró, fui surpreendido por um show que mexeu comigo de um jeito que eu não esperava. Era o show de Wesley Safadão. O povo vibrava, cantava, dançava. Mas foi logo na primeira música que o inesperado aconteceu: a emoção me pegou de jeito. Wesley começou o show cantando "Conversando com Deus" , uma composição de Jonas Andrade, e eu travei. Meus olhos encheram d’água. Senti um nó na garganta. Aquela música, aquela letra, aquela dor... tudo ali era tão nosso. E foi preciso vir pra longe de casa pra ver a nossa arte ser valorizada. A verdade é essa: Conceição ainda é muito pobre quando se trata de reconhecer os próprios talentos. Parece que é preciso alguém de fora enxergar pra ...

Crônica: Mário Sérgio

Crônica: Mário Sérgio por Silvio Darlan Era um fim de tarde de encontros, de pessoas iguais a mim e a tantos outros que precisaram sair da nossa terra para estudar fora. A concentração, como sempre, era em Dé — no pós-missa, no pós-JMCC. Eu estava ali, na calçada, na praça do Ó — ponto de conversas, gargalhadas e histórias sem hora para acabar. Foi ali que vi Mário Sérgio Gomes Pedoni pela primeira vez. Não o reconheci de vista, mas já tinha ouvido falar muito sobre ele. “Esse é o Mário”, disse alguém, como quem apresenta um velho conhecido. E, de certa forma, era. Mário já fazia parte da cidade antes mesmo de qualquer encontro pessoal. Estava nas falas do povo, nos eventos que agitavam Conceição — nas gincanas do Instituto, nas peças de teatro do TAC, nos desfiles de 7 de setembro e de 8 de outubro — nas causas sociais que se espalhavam por onde ele passava. Imagem cedida por Valmir Nunes, acervo pessoal. Mário era um ativista cultural com alma de artista e coração de militante. Estud...

Meu Primeiro Livro

Meu Primeiro Livro Silvio Darlan Lembro como se fosse hoje da primeira vez que li um livro inteiro. Estudava no Grupo Escolar José Leite, em Conceição do Piancó, e o título era “A Moreninha”, do autor Joaquim Manuel de Macedo. Eu ainda era menino, mas já sentia uma certa curiosidade por aquelas histórias que pareciam me levar pra outro tempo, outro lugar. “A Moreninha” é um romance leve, romântico, com uma pitada de humor. Conta a história de Augusto, um jovem que não acreditava no amor, até se apaixonar por Carolina, a tal Moreninha. O interessante é que, por trás da história de amor, o livro mostra como era a vida no Brasil do século XIX, com seus costumes, festas e jeitos de pensar bem diferentes dos nossos.   Na época, li mais pela obrigação da escola do que por vontade. Mas o livro ficou marcado na minha memória. Agora, depois de tantos anos, resolvi reler essa mesma obra — e foi uma experiência completamente diferente. O livro, claro, continua o mesmo. As palavras est...

Uniões homoafetivas e fidelidade: uma reflexão sobre direito e convivência

 Uniões homoafetivas e fidelidade: uma reflexão sobre direito e convivência “O Beijo” (1925) — René Magritte Por Silvio Darlan, advogado Durante muito tempo, o dever de fidelidade no casamento foi interpretado a partir de uma lógica tradicional, patriarcal e centrada no modelo heterossexual. A fidelidade era entendida, sobretudo, como uma garantia da origem biológica dos filhos, assegurando a herança e a “honra” da família. Essa exigência recaía principalmente sobre as mulheres, como explica a advogada Fernanda Las Casas, que recorda: “Por gestar o filho, a fidelidade era exigida com mais rigor da mulher.” Historicamente, o adultério era severamente punido, inclusive com a morte na Antiguidade, como previa a Lex Julia de adulteris , do Direito Romano. No Brasil colonial, sob influência do Direito português e do Direito Canônico, a pena de morte foi retirada, mas a detenção permaneceu como sanção. Com o passar dos séculos e a evolução dos direitos humanos, essas punições foram s...