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Crônica: Mário Sérgio


Crônica: Mário Sérgio

por Silvio Darlan


Era um fim de tarde de encontros, de pessoas iguais a mim e a tantos outros que precisaram sair da nossa terra para estudar fora. A concentração, como sempre, era em Dé — no pós-missa, no pós-JMCC. Eu estava ali, na calçada, na praça do Ó — ponto de conversas, gargalhadas e histórias sem hora para acabar. Foi ali que vi Mário Sérgio Gomes Pedoni pela primeira vez.

Não o reconheci de vista, mas já tinha ouvido falar muito sobre ele. “Esse é o Mário”, disse alguém, como quem apresenta um velho conhecido. E, de certa forma, era. Mário já fazia parte da cidade antes mesmo de qualquer encontro pessoal. Estava nas falas do povo, nos eventos que agitavam Conceição — nas gincanas do Instituto, nas peças de teatro do TAC, nos desfiles de 7 de setembro e de 8 de outubro — nas causas sociais que se espalhavam por onde ele passava.

Imagem cedida por Valmir Nunes, acervo pessoal.

Mário era um ativista cultural com alma de artista e coração de militante. Estudava História em Cajazeiras, formou-se em Serviço Social e mergulhou com coragem na militância que hoje chamamos de LGBTQIA+, mas que, naquele tempo, era conhecida como GLS. Era ousado ser quem se é, e Mário foi — com dignidade, coragem e presença. Mas, acima de tudo, era um amigo. Daqueles que inspiram, que te chamam de volta quando você se perde um pouco de si mesmo. Um amigo que te corrige sem julgar, que ouve antes de aconselhar, que ri alto e faz questão de dividir a vida.

Tem gente que acha que pode caminhar sozinho. Mas ninguém vive no mundo assim. A vida precisa de vozes que nos lembrem quem somos, de olhares que nos enxerguem por dentro, de presenças que nos façam melhores. Mário foi isso para muita gente — inclusive para mim.

Hoje, quando penso na importância dos amigos, me lembro daquele dia na calçada de Dé. Me lembro do sorriso aberto de Mário, das ideias que ele soltava, da força que ele carregava mesmo quando a vida era dura. Amigo não é só quem está por perto — é quem nos atravessa, nos marca, nos transforma.

Mário se foi cedo, foram apenas 49 anos de vida, mas que deixaram marcas profundas e permanentes. Ficou aqui, em cada canto onde passou. Ficou nos gestos de quem aprendeu com ele, nas  boas memórias, nas sementes de cultura e respeito que ele espalhou com tanto amor.  

Que saibamos valorizar os amigos enquanto é tempo. Que sejamos, também nós, esse tipo raro de gente: que inspira, que constrói, que cuida.


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