Silvio Darlan
Há cidades que contam sua história por meio dos livros. Outras, pelas igrejas, pelos monumentos ou pelas praças. João Pessoa tem a felicidade de contar parte de sua história através da música.
Ontem estive no Sabadinho Bom, um dos mais belos projetos culturais da capital paraibana. Criado para ocupar as ruas do Centro Histórico com arte e convivência, o evento se tornou um ponto de encontro para quem aprecia a boa música e acredita que a cultura é capaz de dar vida nova aos espaços urbanos.
A ideia é admirável. Sem grandes formalidades, o projeto reúne artistas talentosos e aproxima o público de manifestações genuinamente brasileiras. Ali, o samba, o choro e o forró encontram abrigo entre casarões antigos e ruas carregadas de memória.
É verdade que a estrutura ainda deixa muito a desejar. Dos banheiros ao palco, há deficiências que saltam aos olhos de quem frequenta o evento. Contudo, essas limitações não diminuem a grandeza da iniciativa. Pelo contrário, revelam o quanto o projeto merece mais atenção e investimentos para alcançar o padrão que sua relevância cultural exige.
Ontem, uma apresentação chamou especialmente minha atenção. Um sanfoneiro natural de Sapé, cujo nome infelizmente não consegui guardar, tomou conta do ambiente com sua arte. O forró executado por ele parecia trazer consigo a alma do Nordeste. Era música sem maquiagem, sem excessos, sem artifícios. Apenas a força de uma tradição que resiste ao tempo e continua emocionando quem sabe escutar.
Foi também uma tarde de reencontros. Estava acompanhado de um grupo de amigos de Taperoá, cidade que ocupa um lugar especial na cultura paraibana. Conhecida por suas paisagens sertanejas e por suas tradições populares, Taperoá tornou-se um dos símbolos do imaginário nordestino graças à forte ligação com Ariano Suassuna. Foi ali que o escritor viveu parte importante de sua infância e encontrou inspiração para muitas das histórias que eternizou na literatura brasileira.
Entre conversas, risos e boa música, tive a alegria de ser convidado por Palala e seus companheiros para passar o São João em Taperoá. Recebi o convite com entusiasmo. Afinal, conhecer Taperoá durante os festejos juninos é muito mais do que participar de uma festa; é mergulhar em uma das mais autênticas expressões culturais do sertão paraibano.
Espero, em breve, conhecer de perto a cidade adotiva de Ariano Suassuna, caminhar por suas ruas, ouvir suas histórias e sentir de perto a atmosfera que ajudou a formar um dos maiores escritores brasileiros.
Voltei para casa com a sensação de que a cultura continua sendo um dos caminhos mais seguros para aproximar pessoas. Entre acordes de sanfona, rodas de conversa e novas amizades, o Sabadinho Bom cumpriu mais uma vez sua missão: lembrar que a arte ainda é capaz de transformar um simples sábado em uma memória que merece ser guardada.
E, para um domingo de reflexão, talvez essa seja uma das melhores notícias.
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