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PLEASURE: A MÚSICA QUE SE TORNOU A VOZ DAS DESPEDIDAS EM PIANCÓ

 

Silvio Darlan



Sempre associamos uma música a algum momento de nossa vida.

Há canções que nos fazem recordar um grande amor, uma amizade inesquecível, uma viagem distante ou uma fase marcante da juventude. A música possui uma capacidade singular de despertar memórias afetivas. Ela atravessa o tempo, resgata emoções e nos transporta para lugares que, muitas vezes, já não existem, exceto dentro de nós.

Mas algumas músicas seguem caminhos inesperados.

Foi o que aconteceu com a composição instrumental "Pleasure", faixa que dá nome ao álbum lançado em 1980 pelo pianista e compositor norte-americano Stephen Schlaks. O disco, considerado o sexto álbum de estúdio do artista, reúne dez composições instrumentais marcadas pela suavidade do piano, por arranjos orquestrais delicados e por uma atmosfera profundamente emocional. A obra contou ainda com arranjos e direção orquestral do maestro italiano Vince Tempera.

Stephen Schlaks construiu sua carreira explorando melodias românticas e contemplativas, transformando o piano em uma linguagem universal capaz de comunicar sentimentos sem a necessidade de palavras. No álbum Pleasure, essa característica aparece em sua forma mais madura, produzindo músicas que parecem dialogar diretamente com as emoções humanas.

A faixa-título, "Pleasure", talvez seja o melhor exemplo dessa proposta artística. A composição apresenta um andamento sereno, notas suaves e uma melodia que transmite paz, reflexão e sensibilidade. Para a maioria das pessoas, trata-se simplesmente de uma bela música instrumental.

Mas não em Piancó.

Em Piancó, no coração do sertão paraibano, "Pleasure" adquiriu um significado completamente diferente daquele imaginado por seu compositor.

Para os moradores da cidade, os primeiros acordes da música dificilmente remetem ao romantismo ou à contemplação. Eles anunciam outra coisa.

Uma nota fúnebre.

A explicação está ligada a uma figura que há décadas faz parte do imaginário popular piancoense: Leocácio.

Há mais de trinta anos, ele realiza um trabalho de radiodifusão comunitária que se tornou parte da identidade cultural da cidade. Utilizando os tradicionais alto-falantes espalhados pela zona urbana — as famosas difusoras, como costumamos chamá-las no interior — ele transmite diariamente notícias, avisos de interesse público, comunicados, músicas e as conhecidas notas fúnebres.

E é justamente nesse momento que entra em cena a música "Pleasure".

Antes do anúncio do falecimento de um cidadão, os acordes da composição toca pelas ruas, atravessam bairros inteiros e chegam às casas dos moradores. Com o passar dos anos, a repetição desse ritual produziu um fenômeno curioso: a música deixou de ser apenas uma composição instrumental e passou a integrar a memória coletiva da cidade.

Hoje, qualquer pessoa de Piancó que ouça os primeiros segundos de "Pleasure" imediatamente associará a melodia a uma nota fúnebre.

É um condicionamento afetivo que atravessa gerações.

Confesso que não entendo exatamente como Leocácio escolheu essa música para desempenhar essa função. Talvez tenha sido uma escolha casual. Talvez tenha sido apenas a beleza melancólica da melodia. O fato é que a associação tornou-se definitiva.

Em Piancó, "Pleasure" cumpre um papel semelhante ao da famosa chamada do Plantão da Globo. Em qualquer lugar do Brasil, bastam alguns acordes daquela vinheta para despertar atenção imediata. No Vale do Piancó, ocorre o mesmo com a composição de Stephen Schlaks.

A diferença é que, enquanto o Plantão da Globo anuncia fatos extraordinários, "Pleasure" anuncia a inevitável realidade da vida: a despedida daqueles que partiram.

E isso é cultura.

Cultura não é apenas aquilo que está registrado nos livros ou preservado nos museus. Cultura também é aquilo que uma comunidade constrói espontaneamente ao longo do tempo. É o significado que atribuímos às coisas. É a memória compartilhada. É a identidade coletiva.

Por isso, quando a melodia de "Pleasure" toca pelas difusoras de Piancó, não estamos ouvindo apenas uma música composta por um pianista norte-americano há mais de quatro décadas.

Estamos ouvindo uma tradição.

Estamos ouvindo uma memória coletiva.

Estamos ouvindo a voz do Vale do Piancó.

E talvez seja exatamente essa a maior prova de que a cultura popular continua viva: a capacidade de transformar uma simples melodia em um símbolo permanente da história de um povo.

https://youtu.be/kwan0G9RbOU?si=gO4jsnSeerOPi-t2

Silvio Darlan
Para o Jornal A União

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