Silvio Darlan
Temos memórias que ultrapassam a própria memória. São lembranças tão vivas que parecem desafiar o tempo, permanecendo guardadas em algum lugar especial da alma, prontas para reaparecer nos momentos mais simples da vida.
Meu domingo costuma começar com a leitura do jornal A União. E, toda vez que abro suas páginas, uma verdadeira viagem ao passado acontece diante dos meus olhos. Quantas lembranças me acompanham desde os tempos em que eu ainda morava em Conceição.
Naquela época, ler o jornal exigia um pouco de paciência. Eu precisava esperar que o Padre José Alves terminasse sua leitura para, somente depois, ter acesso aos exemplares. Quando finalmente o jornal chegava às minhas mãos, as notícias já não eram tão recentes. Muitas vezes eu lia reportagens, crônicas e artigos publicados dois ou três dias depois. Mas isso pouco importava. O prazer da leitura era maior do que qualquer atraso.
Eu percorria cada página com curiosidade. Lia as notícias do estado, acompanhava os acontecimentos do país e me encantava com as crônicas que encontrava pelo caminho. Talvez sem perceber, aqueles momentos ajudassem a despertar em mim o gosto pelas palavras, pela escrita e pelas histórias que os jornais carregavam.
Outra lembrança que o tempo nunca conseguiu apagar vem das ondas do rádio. Ainda menino, eu costumava ouvir o programa Nelson Gonçalves, transmitido pela Rádio Alto Piranhas AM, de Cajazeiras. Aquele som preenchia a casa e fazia parte da rotina de tantas famílias sertanejas. A voz do locutor, as músicas e a atmosfera do programa criavam um cenário que hoje pertence à minha memória afetiva.
O mais curioso é que, graças à internet, ainda posso ouvir esse mesmo programa, que está no ar há mais de quarenta anos. Quando isso acontece, sinto como se uma pequena janela se abrisse para o passado. Por alguns instantes, volto a ser aquele menino de Conceição, cercado pelas mesmas melodias e pelas mesmas sensações de outros tempos.
Nessas horas, também me recordo de minha mãe, Maria Selma. Sua presença está profundamente ligada a essas lembranças. As músicas que tocavam no rádio, os sons da casa, os domingos tranquilos e as conversas simples formam um conjunto de recordações que o tempo não conseguiu levar.
Percebo, então, que a memória afetiva possui um poder extraordinário. Ela transforma um jornal em uma máquina do tempo. Faz um programa de rádio atravessar décadas. E permite que pessoas que amamos continuem caminhando ao nosso lado, mesmo quando os anos passam.
Talvez seja por isso que algumas memórias ultrapassem a própria memória. Porque não vivem apenas na lembrança dos fatos, mas nos sentimentos que eles deixaram dentro de nós. E esses, felizmente, não envelhecem.
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