Jonas Andrade conversou com Deus, com Wesley Safadão e com o mundo
Por Silvio
Darlan
Esse ano,
resolvi conhecer o São João de Caruaru. Sempre ouvi dizer que era o maior e o
melhor do mundo, e confesso: é mesmo de encher os olhos e o coração. No segundo
dia por lá, no meio de tanta gente, de tanto forró, fui surpreendido por um
show que mexeu comigo de um jeito que eu não esperava.
Era o show
de Wesley Safadão. O povo vibrava, cantava, dançava. Mas foi logo na primeira
música que o inesperado aconteceu: a emoção me pegou de jeito. Wesley começou o
show cantando "Conversando com Deus", uma composição de Jonas
Andrade, e eu travei. Meus olhos encheram d’água. Senti um nó na garganta.
Aquela música, aquela letra, aquela dor... tudo ali era tão nosso. E foi
preciso vir pra longe de casa pra ver a nossa arte ser valorizada.
A verdade é
essa: Conceição ainda é muito pobre quando se trata de reconhecer os próprios
talentos. Parece que é preciso alguém de fora enxergar pra gente começar a dar
valor. E isso me dói, porque Jonas Andrade é nosso. Nasceu na zona rural de
Conceição, mais precisamente na Fazenda São Matias, hoje pertencente ao
município de Santa Inês, no dia 10 de junho de 1967. Um homem simples, criado
ouvindo rádio, embalado pelas toadas dos vaqueiros, pelos aboios, pelas
histórias cantadas da vida sofrida do sertão.
A música
que Wesley cantou, “Conversando com Deus”, foi composta por Jonas em 2020.
Já foi interpretada por nomes como Vicente Nery, mas agora ganhou uma nova
força, abrindo os shows de uma das maiores turnês de São João do país. E é
incrível como ela chega fundo na gente. É como uma oração cantada.
A letra
fala com Deus num momento difícil da vida. É o grito de quem está cansado, com
medo, sem paz. O eu lírico se sente só, abandonado, mas ainda assim não
desiste. “Mas eu não abro mão da minha fé, nem vou sozinho” — essa frase marcou
em mim como um grito de resistência. A fé é o que sustenta o personagem da
música. E talvez seja isso que sustenta muitos de nós também. A linguagem é
simples, direta, parece até que a gente tá escutando alguém desabafar na
calçada, num banco da praça, numa conversa de fim de tarde. As palavras são
fortes: “ódio”, “solidão”, “medo”, “vencer”… Tudo tão real, tão humano.
Tem uma
parte que diz que encontrou "uma ladeira pra subir", e é exatamente
assim que a vida parece às vezes: uma subida difícil, cansativa, mas que a
gente encara com fé no peito e o passo firme. A música emociona porque é
verdadeira. Tem rima, tem melodia, tem dor — mas, acima de tudo, tem esperança.
E pensar que tudo isso saiu da cabeça e do coração de um conterrâneo nosso. De um homem de uma terra tão seca, quase sempre esquecida. Um artista que brotou do chão duro do sertão e que agora emociona palcos gigantes. Lá em Caruaru, vi muita coisa bonita. Mas nada me marcou mais do que aquele instante em que a voz de Wesley Safadão deu vida ao sentimento de Jonas Andrade. Foi ali que percebi: a gente pode até ser esquecido dentro da nossa cidade, mas a verdade sempre dá um jeito de gritar pelo mundo.
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