Silvio Darlan
O primeiro livro que li na vida foi A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo. Ganhei esse exemplar na escola onde estudava, em Conceição, Paraíba, no velho Grupo Escolar José Leite. Lembro do cheiro do papel, das páginas amareladas e do encantamento por aquela história leve, feita de amores e encontros juvenis. Na época, não percebi nada além da narrativa doce e do romance inocente que se desenrolava diante dos meus olhos.
Hoje, tantos anos depois, abri novamente o livro. A capa já é outra, a edição é nova, mas as palavras são as mesmas — e agora soam diferentes. Publicado em 1844, escrito por um jovem médico que inaugurou o romance romântico brasileiro, o livro traz também a marca do seu tempo: o preconceito racial entranhado nas falas e descrições.
Expressões como “crioulo” ou “cravo da Índia” surgem com naturalidade no texto, mas carregam o peso de séculos de escravidão. Eram palavras usadas para designar negros e escravizados, e que hoje soam como cicatrizes da língua. No capítulo 2, aparece Tobias, descrito assim:
Tobias: escravo, criado de D. Joana, prima de Filipe. O negro tem dezesseis anos, é bem-apessoado, falante, muito vivo quanto à questão de dinheiro.
E, logo depois, a narrativa se estende numa pintura ainda mais vívida, revelando a visão racializada da época:
Ah! maldito crioulo… estava-lhe o todo dizendo para que servia!… Pinta na tua imaginação, Augusto, um crioulo de dezesseis anos, todo vestido de branco com uma cara mais negra e mais lustrosa do que um botim envernizado, tendo, além disso, dois olhos belos, grandes, vivíssimos e cuja esclerótica era branca como o papel em que te escrevo, com lábios grossos e de nácar, ocultando duas ordens de finos e claros dentes, que fariam inveja a uma baiana; dá-lhe a ligeireza, a inquietação e rapidez de movimentos de um macaco e terás feita ideia desse diabo de azeviche, que se chama Tobias.
Lidas com atenção, essas palavras mostram que, mesmo em um romance cujo foco não é a escravidão, ela estava presente — não apenas como pano de fundo, mas como parte das relações sociais, da linguagem e das mentalidades.
Talvez seja esse o sentido de voltar aos livros que nos formaram: perceber que a literatura, assim como nós, muda com o tempo — não porque as palavras mudem, mas porque mudam os olhos que as leem.
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