O SAL QUE NÃO SALGA E A TERRA QUE NÃO SE DEIXA SALGAR
Silvio Darlan
Essa advertência mantém-se atualíssima no Brasil contemporâneo. O crescimento acelerado do protestantismo, sobretudo de vertente neopentecostal, tem acompanhado o avanço de uma influência política marcada pela extrema direita. Em muitas comunidades, igrejas que deveriam ser espaços de fé e acolhimento se transformam em palanques eleitorais, em que líderes pregam discursos ideológicos em vez de valores espirituais. O “sal” perde seu sabor quando o púlpito se converte em tribuna de interesses políticos, e a coerência entre palavra e exemplo é abandonada.
Além disso, a dinâmica observada nos sermões de Vieira encontra paralelo na relação entre líderes e fiéis atuais. Muitos pastores pregam uma coisa e vivem outra, moldando consciências em favor de projetos de poder que contradizem princípios éticos e democráticos. A advertência do sermão ressoa: a corrupção não está apenas nos que falam sem verdade, mas também nos que aceitam ser conduzidos sem reflexão crítica. O risco é que a fé se transforme em instrumento de manipulação, desviando os fiéis da prática do Evangelho e de uma vida pautada por solidariedade e justiça.
Portanto, a lição de Vieira continua vital. Para que a sociedade não se corrompa, é necessário que líderes religiosos e políticos sejam coerentes, pregando com palavras e exemplos, e que os fiéis exerçam discernimento crítico, recusando-se a ser “terra que não se deixa salgar”. O sermão de Santo Antônio, embora do século XVII, ecoa como alerta: fé e política devem estar ancoradas na ética e na coerência, para que o sal da terra continue a cumprir sua função transformadora.
Referência
VIEIRA, Antônio. Sermão de Santo Antônio aos Peixes. Pregado na cidade de São Luís do Maranhão, em 1654. Disponível em: https://arquivo.bocc.ubi.pt. Acesso em: 20 ago. 2025.
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