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O SAL QUE NÃO SALGA E A TERRA QUE NÃO SE DEIXA SALGAR

 

O SAL QUE NÃO SALGA E A TERRA QUE NÃO SE DEIXA SALGAR

Silvio Darlan


No Sermão de Santo Antônio aos Peixes, pregado em São Luís do Maranhão em 1654, Padre Antônio Vieira parte da expressão bíblica “Vós sois o sal da terra” para afirmar que a função do pregador é impedir a corrupção moral e espiritual da sociedade. Vieira questiona: quando a terra se mostra corrompida, será culpa do sal que não salga ou da terra que não se deixa salgar? Ou seja, a corrupção decorre tanto da incoerência dos pregadores quanto da resistência dos ouvintes. Santo Antônio, rejeitado pelos homens em Arímino, não desistiu de pregar, indo até aos peixes para cumprir sua missão, demonstrando zelo e criatividade na defesa da fé.  

Essa advertência mantém-se atualíssima no Brasil contemporâneo. O crescimento acelerado do protestantismo, sobretudo de vertente neopentecostal, tem acompanhado o avanço de uma influência política marcada pela extrema direita. Em muitas comunidades, igrejas que deveriam ser espaços de fé e acolhimento se transformam em palanques eleitorais, em que líderes pregam discursos ideológicos em vez de valores espirituais. O “sal” perde seu sabor quando o púlpito se converte em tribuna de interesses políticos, e a coerência entre palavra e exemplo é abandonada.

Além disso, a dinâmica observada nos sermões de Vieira encontra paralelo na relação entre líderes e fiéis atuais. Muitos pastores pregam uma coisa e vivem outra, moldando consciências em favor de projetos de poder que contradizem princípios éticos e democráticos. A advertência do sermão ressoa: a corrupção não está apenas nos que falam sem verdade, mas também nos que aceitam ser conduzidos sem reflexão crítica. O risco é que a fé se transforme em instrumento de manipulação, desviando os fiéis da prática do Evangelho e de uma vida pautada por solidariedade e justiça.

Portanto, a lição de Vieira continua vital. Para que a sociedade não se corrompa, é necessário que líderes religiosos e políticos sejam coerentes, pregando com palavras e exemplos, e que os fiéis exerçam discernimento crítico, recusando-se a ser “terra que não se deixa salgar”. O sermão de Santo Antônio, embora do século XVII, ecoa como alerta: fé e política devem estar ancoradas na ética e na coerência, para que o sal da terra continue a cumprir sua função transformadora.




Referência

VIEIRA, Antônio. Sermão de Santo Antônio aos Peixes. Pregado na cidade de São Luís do Maranhão, em 1654. Disponível em: https://arquivo.bocc.ubi.pt. Acesso em: 20 ago. 2025.

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