Pular para o conteúdo principal

NINGUÉM SE PERDE NA VOLTA

Silvio Darlan



A primeira vez que ouvi falar de Ricardo Coutinho eu estava lá em Conceição, uma das últimas cidades da Paraíba, acostumada durante muito tempo a olhar o Estado como quem olha de longe para aquilo que acontece nos centros de poder. Ricardo já vinha construindo sua trajetória, mas ainda não era o nome que depois se tornaria conhecido por toda a Paraíba. Talvez por isso eu tenha pensado, agora, no significado de sua volta. Ricardo sempre foi uma figura que fugiu da configuração tradicional da política paraibana. Não nasceu de uma oligarquia, não herdou um grupo político, não recebeu como patrimônio uma estrutura de poder pronta. Construiu seu nome na política, primeiro pela capacidade de fazer política, depois pela habilidade de formar alianças e, sobretudo, pela capacidade de ocupar espaços que pareciam reservados aos mesmos grupos de sempre. As alianças mudaram, os tempos mudaram, mas havia uma coisa que permaneceu: o Ricardo que entrou na política carregando uma determinada visão de Paraíba. É justamente isso que torna sua trajetória diferente da política convencional.

Talvez por isso tenha existido, nos últimos anos, um esforço tão grande para transformar Ricardo Coutinho em personagem do passado. Houve momentos em que o debate político deixou de ser debate e passou a ser tentativa de desqualificação pública, como se o desgaste de uma pessoa pudesse apagar a história que ela construiu. Apostaram que, fora do poder, Ricardo seria naturalmente empurrado para o esquecimento; que perderia espaço, voz e capacidade de interferir na política. Aconteceu o contrário. Sua campanha para a Câmara Federal teve uma característica que não se vê todos os dias: foi uma campanha de alguém que não precisava fingir que estava começando de novo, porque nunca deixou de ser quem era. Ricardo não voltou à origem. Ele sempre esteve ligado à sua origem política. O que mudou foi o lugar de onde passou a falar. E talvez seja essa a parte mais interessante da política: às vezes, quem esteve no centro do poder precisa reaprender a caminhar pelas margens para descobrir que ainda existe povo, memória e reconhecimento fora das estruturas tradicionais. Sua eleição, portanto, pode ser lida como uma espécie de justiça histórica, não porque a política deva ser feita de vinganças, mas porque uma trajetória pública não desaparece simplesmente porque seus adversários decidiram que ela deveria desaparecer.

E é aqui que a história fica maior do que o próprio Ricardo. A Paraíba que ele governou entre 2011 e 2019 não era exatamente a mesma que recebeu. Houve obras, integração entre regiões, investimentos e uma tentativa de fazer o Estado funcionar olhando também para lugares que durante muito tempo apareceram pouco no mapa das prioridades. Pode-se discutir escolhas, erros, acertos e o estilo político de Ricardo e a política democrática existe justamente para isso. Mas não se pode discutir seriamente a Paraíba contemporânea fingindo que sua passagem pelo governo não aconteceu. Agora, no Congresso, Ricardo poderá ocupar outro espaço, mas talvez seu maior significado continue sendo dentro da própria Paraíba: o de demonstrar que a política estadual não é propriedade permanente de nenhum grupo. A eleição de Lula, nesse cenário, também abre uma janela importante para o campo político que Ricardo representa, sobretudo porque a presença de ambos em Brasília poderá produzir novas conexões para o Estado. O futuro, como sempre, pertence a Deus e à política cabe construir as possibilidades. José Américo, outro paraibano que conhecia bem as idas e vindas da vida pública, deixou uma frase que parece escrita para estas circunstâncias: “Voltar é uma forma de renascer. E ninguém se perde na volta.” Talvez seja exatamente isso. Ricardo não voltou para procurar o lugar que perdeu. Voltou para ocupar o lugar que, de algum modo, nunca deixou de ser seu.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Fatinha Costa

 Silvio Darlan Quando um artista sobe ao palco e emociona uma multidão, o público costuma enxergar apenas a voz, o talento e o brilho daquele momento. Mas, por trás de cada show, cada viagem e cada apresentação, existem pessoas que trabalham para que tudo aconteça. É nesse lugar especial que está Fatinha Costa. Há muitos anos ao lado de Elba Ramalho, Fatinha se tornou uma figura querida por todos que acompanham a cantora. Seu trabalho nos bastidores é fundamental: ela ajuda a organizar detalhes, acompanha a rotina da artista, participa da preparação dos shows e contribui para que tudo esteja pronto quando Elba entra em cena. Quem conhece a trajetória de Elba sabe que uma grande carreira não é construída apenas com talento, mas também com uma equipe dedicada e comprometida. Fatinha é uma dessas pessoas que fazem a diferença sem precisar aparecer. Sua força está na organização, no cuidado e na dedicação diária. Com o passar dos anos, a relação de Fatinha com os fãs de Elba Ramalho ul...

Do Sabadinho Bom aos Caminhos de Taperoá - Silvio Darlan

   Silvio Darlan Há cidades que contam sua história por meio dos livros. Outras, pelas igrejas, pelos monumentos ou pelas praças. João Pessoa tem a felicidade de contar parte de sua história através da música. Ontem estive no Sabadinho Bom, um dos mais belos projetos culturais da capital paraibana. Criado para ocupar as ruas do Centro Histórico com arte e convivência, o evento se tornou um ponto de encontro para quem aprecia a boa música e acredita que a cultura é capaz de dar vida nova aos espaços urbanos. A ideia é admirável. Sem grandes formalidades, o projeto reúne artistas talentosos e aproxima o público de manifestações genuinamente brasileiras. Ali, o samba, o choro e o forró encontram abrigo entre casarões antigos e ruas carregadas de memória. É verdade que a estrutura ainda deixa muito a desejar. Dos banheiros ao palco, há deficiências que saltam aos olhos de quem frequenta o evento. Contudo, essas limitações não diminuem a grandeza da iniciativa. Pelo contrário, reve...

A medicina não é palco.

Silvio Darlan A decisão judicial que determinou a retirada do vídeo institucional publicado pelo Município de Conceição/PB https://www.tjpb.jus.br/noticia/justica-determina-a-retirada-de-video-com-dados-sensiveis-de-paciente-falecido revela mais do que uma controvérsia jurídica. Ela expõe um problema social grave, marcado pela negligência no cuidado, pela banalização da vida e pela cultura da exposição típica da geração do “tudo posto”. O caso mostra um paciente com sintomas claros de doença grave que não recebeu atendimento adequado no tempo certo. A ausência de exames, a demora na transferência e a falta de condutas eficazes indicam uma falha estrutural do sistema de saúde local, onde o improviso e o “mínimo possível” acabam substituindo o dever de cuidado. Não se trata apenas de erro individual, mas de um modelo institucional que normaliza a precariedade. A segunda falha, ainda mais simbólica, ocorreu após a morte. Ao divulgar publicamente o nome completo do paciente falecido e ...