O COROINHA
Esta memória é de um domingo.
E, por mais que algumas pessoas tenham dificuldade em acreditar, eu era uma criança tímida. Ou talvez ainda seja um pouco. A verdade é que a timidez convivia com outra característica muito mais visível: eu era inquieto. Daquelas crianças que estavam sempre observando alguma coisa, fazendo perguntas, correndo de um lado para o outro e, não raramente, metendo-se em pequenos perigos.
Naquele domingo eu devia ter cerca de oito anos.
Era um menino magro, desses que pareciam crescer mais para cima do que para os lados. Vestia os conjuntos escolhidos por minha mãe, uma mulher profundamente católica. Minha avó também era católica fervorosa. Naquela casa, a fé não era apenas uma crença. Era parte da rotina.
O dia ainda estava amanhecendo quando fui do bairro Nossa Senhora de Fátima em direção à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.
A manhã estava fria.
Uma névoa fina repousava sobre a grama e cobria partes do caminho. O sol ainda lutava para vencer o frio da madrugada. Em alguns pontos era possível observar pequenas gotas de orvalho brilhando sobre as folhas.
No caminho, encontrei Dona Duquinha.
Ela também seguia para a missa.
Por alguns minutos caminhamos juntos. Mas Dona Duquinha andava no ritmo da experiência. Eu caminhava no ritmo da infância. Pouco tempo depois ela foi ficando para trás enquanto eu seguia apressado.
Pelas difusoras da igreja, as músicas de Padre Zezinho já tocavam pela cidade.
Ainda hoje, consigo lembrar daquelas canções.
A memória guarda sons de uma forma misteriosa.
Ao chegar à igreja, subi correndo a escadaria.
Cheguei tão cedo que encontrei Dona Loura iniciando os preparativos da manhã.
Vestida de azul, ela subiu para tocar a chamada da missa.
Primeiro alguns toques.
Depois o repique dos sinos.
O som espalhava-se pela cidade inteira.
Era o anúncio de que o domingo estava começando.
Antes da missa, havia sempre um ritual que fazia parte da programação.
Ivanilda assumia seu lugar.
Com sua postura firme de professora aposentada e sua voz segura, fazia uma longa leitura das intenções da missa.
Eram agradecimentos, promessas, pedidos de oração, homenagens aos falecidos e intenções das famílias da cidade e da zona rural.
A leitura era extensa.
Muito extensa.
Mas ninguém reclamava.
Aquilo fazia parte da celebração e da vida da comunidade.
Tudo isso acontecia antes do início da transmissão da missa.
E então entrava em cena um personagem que eu jamais esqueceria.
Fernando.
Já havia sido vereador e possuía uma voz forte e bem colocada.
Falava como um locutor profissional.
Quando chegava o momento da transmissão, sua voz ecoava pelo templo:
— Atenção, estúdio da Rádio Educadora. Estamos aguardando o sinal de retorno.
Hoje, olhando para trás, impressiona a simplicidade de toda aquela operação.
Não havia computadores.
Não havia internet.
Não havia tecnologia sofisticada.
Existia apenas um aparelho de rádio, uma linha telefônica e muita boa vontade.
O retorno era a própria transmissão ao vivo.
Tudo acontecia ali mesmo.
Sem edição.
Sem segunda tentativa.
Sem gravação.
Era no duro.
Era na lata.
Era verdadeiro.
Poucos minutos depois vinha a confirmação.
A transmissão estava no ar.
Pontualmente às sete horas da manhã a missa começava.
Os instrumentos eram modestos.
Um violão.
Um atabaque.
Às vezes um reco-reco.
E, mesmo assim, produziam uma sonoridade que parecia preencher toda a igreja.
Naquele horário, a audiência era gigantesca.
As famílias da zona rural de Conceição paravam para ouvir a missa.
Mas não apenas elas.
O sinal alcançava outras cidades.
Chegava a localidades da Paraíba e até mesmo do Ceará.
Em muitas casas, a missa da Rádio Educadora era tão importante quanto a própria presença física na igreja.
Era uma espécie de encontro coletivo invisível.
Um laço que unia pessoas espalhadas por quilômetros de distância.
No altar estava o Padre José Alves de Sousa.
Suas homilias nunca se limitavam às leituras do Evangelho.
Ele falava sobre a vida real.
Sobre os problemas das famílias.
Sobre as injustiças.
Sobre a pobreza.
Sobre a necessidade de solidariedade.
E havia um detalhe curioso.
Sempre que fazia alguma crítica social mais contundente, baixava discretamente o microfone até a altura da cintura.
Como se desejasse que aquelas palavras alcançassem primeiro as pessoas presentes na igreja antes de seguirem pelas ondas do rádio.
Talvez fosse prudência.
Talvez fosse experiência.
Talvez fosse apenas o jeito sertanejo de dizer verdades difíceis.
Terminada a missa, vinha outro momento que permanece vivo na memória.
A volta para casa.
Agora o frio havia desaparecido.
O sol já castigava as ruas de Conceição.
As conversas aconteciam nas calçadas.
As pessoas comentavam a homilia, os acontecimentos da semana e os planos para o restante do domingo.
E seguia para casa carregando as impressões daquela manhã.
E ao chegar encontrava a cena mais bonita de todas.
Mainha esperando.
Na mesa havia um cuscuz recém-preparado.
Quente.
Cheiroso.
Simples.
Mas carregado de algo que nenhuma receita consegue ensinar.
Amor.
Naquele tempo eu não sabia.
Nenhuma criança sabe.
A gente imagina que aqueles domingos durarão para sempre.
Que as pessoas estarão sempre nos esperando.
Que o café estará sempre pronto.
Que a voz da mãe continuará pela casa.
Mas o tempo segue seu caminho.
Hoje, quando recordo aqueles domingos, lembro da igreja, dos sinos, da Rádio Educadora, de Padre José Alves, de Ivanilda, de Dona Loura, Dona Angelina, de Fernando e de tantas outras pessoas que ajudaram a construir minha história.
Mas existe uma lembrança que se destaca acima de todas as outras.
A imagem de Mainha esperando meu retorno.
Talvez porque isso tenha marcado minha infância.
Talvez porque a igreja tenha ajudado a formar meu caráter.
Mas, principalmente, porque o amor de mãe foi o primeiro altar diante do qual aprendi a rezar.
E essa, talvez, seja a maior saudade.
Mainha.
Comentários
Postar um comentário